22 de Outubro 2026 — por ETIC_Algarve
Pierre Schaeffer: Da “musique concrète” à produção musical de hoje

Se recuarmos ao final da década de 1940, muito antes do primeiro sampler digital ter sido
inventado, e analisarmos o perfil inovador de Pierre Schaeffer, é possível observar a relevância que o engenheiro, compositor, investigador e homem da rádio teve, para a forma como atualmente, escutamos, criamos e nos envolvemos em novas sonoridades.
Durante este período, Schaeffer, foi uma das figuras centrais no desenvolvimento daquilo que chamou de musique concrète – uma nova abordagem à criação de música, na qual a grande diferença estava logo no ponto de partida: ao invés de se começar a música pela partitura ou pelo instrumento, a ideia era começar a partir de um som que já havia sido gravado.
Hoje, esta lógica pode-nos parecer perfeitamente natural, mas naquela época, representou uma mudança profunda na forma de pensar e de compor música. Na música tradicional, a lógica era, em muitos casos, bastante linear – compunha-se primeiro, executava-se depois e, por fim, gravava-se o resultado. Schaeffer decidiu inverter esse processo – A gravação passava a ser matéria-prima; o som podia ser captado, selecionado, cortado, repetido, invertido, acelerado, desacelerado e reorganizado até adquirir uma nova função musical.
O som como objeto
Schaeffer também nos introduziu a uma nova forma de escutar, baseada na percepção do som como um objeto independente da sua fonte de origem, e dando destaque às suas características individuais – textura, forma, duração, movimento, densidade ou timbre. A escuta reduzida, despertou-nos para a capacidade de ouvir o som para além daquilo que o produziu – Um impacto metálico pode transformar-se num elemento percussivo; Uma voz pode ser processada até funcionar como um elemento textural; Um ruído ambiente pode servir de base rítmica; Um som aparentemente banal pode tornar-se um elemento central de uma composição.
Esta abordagem seletiva à escuta, tornou-se extremamente relevante, nos dias que correm, para quem trabalha em produção musical, obrigando a que o produtor não trabalhe apenas com ferramentas, mas também fazendo recurso à sua capacidade de escuta crítica – este, é a meu ver, um ponto essencial a destacar no ensino desta temática.
A tecnologia mudou, o princípio mantém-se
Para realizar estas transformações, Schaeffer utilizava gira-discos – para reproduzir e manipular o som – Gravadores/Players de fita magnética – para reproduzir, gravar e editar trechos – e ainda algumas unidades analógicas de processamento de som. A edição era feita de forma física, cortando e colando a dispendiosa fita magnética, o que exigia tempo, precisão e decisões muito deliberadas e assertivas, operações que hoje são feitas de forma praticamente imediata – num software de produção, de entre uma infinidade de outras possibilidades, é possível cortar, duplicar, inverter ou esticar um som em poucos segundos.
Importa no entanto salientar que a facilidade técnica atual, não erradica a necessidade de se tomarem boas decisões, antes pelo contrário, ela torna essa necessidade ainda maior. Isto é, ter acesso a centenas de plugins e milhares de samples não significa necessariamente produzir melhor, pois o mais importante continua a ser, saber o que pretendemos fazer com o som.
Há uma ideia que considero particularmente útil do ponto de vista pedagógico: antes de
escolher um plugin para descarregar e instalar, procurar escolher primeiro a transformação que procuramos obter, ou um objetivo concreto para o som – afinal de contas deve ser ele o objeto da nossa escuta crítica. Considero ser uma excelente estratégia para evitar que a tecnologia substitua a intenção criativa.
A ligação ao ensino na ETIC_Algarve
Esta relação entre escuta, técnica e criatividade está muito presente nos cursos da área de Som e Música da ETIC_Algarve, como o curso de Criação Musical, Produção e Técnicas de Som, e o curso de Produção e Criação Musical Eletrónica, nos quais os formandos trabalham áreas como áudio digital, técnicas de estúdio, edição, processamento e mistura, sampling, síntese ou som para imagem.
É clarividente que, muitas das competências que hoje ensinamos têm uma relação direta com o legado de inovações introduzidas pelo visionário Pierre Schaeffer.
Ensinar que o som não tem de ser apenas algo a registar, mas também algo que pode ser
manipulado, transformado e reorganizado criativamente, é para mim a parte mais interessante de trabalhar este tema com alunos.
E não se trata apenas de conhecer uma figura fundamental da história da música eletroacústica, mas também de perceber a continuidade que existe entre as experiências de estúdio de meados do século XX, e aquilo que hoje fazemos através do Ableton Live, Pro Tools, de samplers, sintetizadores, controladores MIDI ou ferramentas de processamento digital.
O que os futuros profissionais podem retirar desta abordagem?
Se do ponto de vista técnico, Schaeffer nos deixou métodos, por outro lado, do ponto de vista criativo, deixou-nos uma atitude – A capacidade de ouvir com atenção; A disponibilidade para experimentar; A compreensão de que um som pode cumprir uma função diferente daquela que parecia ter originalmente; E, acima de tudo, a ideia de que a tecnologia deve estar ao serviço de uma intenção.
Penso que esta é uma mensagem particularmente relevante para quem está a iniciar um
percurso na produção musical e no som. Aprender a utilizar os softwares é importante, e conhecer acústica, captação, mistura e masterização é essencial. Mas desenvolver uma boa escuta e uma metodologia de experimentação, é aquilo que permite transformar conhecimento técnico em trabalho criativo.
No fundo, é isso que continua a tornar Pierre Schaeffer atual. As ferramentas mudaram
radicalmente, mas a pergunta mantém-se: No que pode este som tornar-se?
Escrito por: Pedro Lobo
Formador Som & Música | ETIC_Algarve
Nota editorial:
As opiniões expressas neste artigo são da responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a posição da ETIC_Algarve | GIZ, LDA.
